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"Um livro aberto é um cérebro que fala; Fechado, um amigo que espera; Esquecido, uma alma que perdoa; Destruído, um coração que chora". "Voltaire"

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Por que nosso corpo para de funcionar?

Falar de morte faz parte do estudo da vida. Em vez de deixar o tema de lado, é hora de explicar à turma que os sistemas trabalham integrados e investigar o que acontece quando algo não sai como o previsto


A Lua se posiciona majestosa lá no alto, mas é parcialmente encoberta por nuvens carregadas, que preenchem o céu. O vento forte faz as portas baterem e os galhos das árvores balançarem. E então surge, sombria e silenciosa, a imagem que tanto apavora todos, munida de uma foice e coberta por uma túnica escura, que deixa ver somente parte de sua face de caveira. Em geral, assim a morte é vista: causa de grande medo e envolta em fantasias. E por essa razão acaba sendo evitada nas aulas de Ciências ou abordada apenas pelo viés comportamental e religioso.

O procedimento não condiz com a relevância do tema. "A morte é uma trajetória natural e é tão importante quanto a vida no sistema evolutivo", explica Franklin David Rumjanek, docente do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É importante, portanto, incluí-la no estudo do corpo humano.

Foi o que fez Amara Andreia Teixeira de Andrade, professora de Ciências do 8º ano da EE Benjamin Bastos, em Vargem Grande do Sul, a 244 quilômetros de São Paulo. Para conseguir tratar de um assunto tão amplo de maneira satisfatória, ela escolheu incluí-lo nas aulas sobre cada um dos sistemas que compõem nosso organismo, enfatizando a interdependência entre eles.

Ao trabalhar o sistema nervoso, por exemplo, Amara começou falando a respeito do funcionamento dele. Na primeira aula, ela trouxe de casa um programa de computador em que aparecia uma simulação de dois minutos sobre os impulsos nervosos e mostrou à turma como eles se propagam dentro do corpo humano. Em seguida, os estudantes observaram a reprodução do sistema em um mapa de anatomia eletrônico, que foi projetado na sala de aula.

Nos próximos encontros, Amara organizou uma aula expositiva sobre as principais estruturas e funções do sistema. Em seguida, a turma foi dividida em grupos de quatro a seis alunos, que receberam um questionário. Havia perguntas como: "Sabendo que nossos movimentos voluntários são coordenados pelo sistema nervoso periférico somático, relacione as estruturas que o compõem e sua ação nos tecidos e órgãos". Nessa etapa, também, três jogos circularam na sala: um quebra -cabeça de borracha em que é possível montar o sistema estudado dentro do corpo, um dorso com peças desmontáveis e um encéfalo de borracha, silicone e corante. A ideia era ajudar a classe a checar os conhecimentos obtidos até então e investigar, na prática, o que foi aprendido


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Por que nosso corpo para de funcionar?

Falar de morte faz parte do estudo da vida. Em vez de deixar o tema de lado, é hora de explicar à turma que os sistemas trabalham integrados e investigar o que acontece quando algo não sai como o previsto


Para entender a relação entre a vida e a morte
"Ao passarmos pela imagem da morte do córtex cerebral, concluímos que a pessoa falece, pois o corpo não recebe mais os comandos para que o coração bata, os rins filtrem o sangue e os pulmões façam a troca gasosa", conta Amara. O mesmo não ocorre com paralisações em áreas específicas, que afetam a fala ou o movimento das pernas, por exemplo.

No fim da sequência, a docente propôs situações-problema, para serem resolvidas em casa e corrigidas em grupo. A ideia era fazer com que a turma não apenas decorasse listas de órgãos. Era preciso compreendê-los e relacioná-los. Foram propostas questões como: "Bia picou o dedo em um alfinete, retirou-o rapidamente e sentiu dor. Observando o corpo humano, descreva o caminho do impulso nervoso, indique a região de percepção da dor e explique se ela é sentida antes ou depois de retirar o alfinete do dedo, justificando sua resposta".

Tratar do funcionamento do corpo, de suas falhas e da morte do ponto de vista biológico é uma tarefa complexa, mas fundamental para entender a vida. Somente dizer que debilidades em um órgão acarretam o falecimento fica vago na cabeça do aluno. É preciso explicar as razões que levam aos problemas de cada sistema e, finalmente, à parada total.

Outro ponto importante nesse processo é considerar as demandas dos estudantes (leia, abaixo, as perguntas mais frequentes nas aulas de Amara). Eles são extremamente curiosos e questionam muito sobre doenças e morte. Dúvidas geradas por situações pessoais - como o falecimento de um parente - e por casos noticiados na mídia também podem ser aproveitadas para discutir o assunto. "Quando acontece um acidente aéreo, por exemplo, eles me bombardeiam de perguntas como: 'As pessoas morrem por asfixia ou por queimadura?'", comenta a docente. Essas oportunidades são o gancho para apresentar textos de revistas científicas à classe e discuti-los.

O cuidado em falar da morte nas aulas de Ciências deve permear o ensino da disciplina e estar presente quando se discute o funcionamento de cada um dos sistemas que compõem o nosso corpo.

Ao trabalhar o tema, além de cumprir seu papel de construir o pensamento científico, Amara ajuda a turma a compreender a vida. "Entender o processo de falência de uma máquina, como é o corpo humano, ajuda o seu usuário, o aluno, a saber a melhor maneira de lidar com ela e, assim, evitar situações de risco e hábitos prejudiciais ao seu bom funcionamento", diz Luciana Hubner, gerente de Formação de Projetos Educacionais da Sangari Brasil e selecionadora do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.
Perguntas dos alunos
Quais órgãos se decompõem primeiro?O primeiro órgão a ser atacado pelas bactérias decompositoras costuma ser o pulmão, seguido por intestino e pâncreas.
Posso ser enterrado vivo?Essa ideia está ligada a uma doença, a catalepsia. Mas, não se preocupe, ela tem tratamento e hoje há formas eficientes de comprovar o falecimento.
O cabelo dos mortos continua crescendo? Sim. Cabelo, unha e pele continuam sendo produzidos até acabar a reserva de nutrientes.

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