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"Um livro aberto é um cérebro que fala; Fechado, um amigo que espera; Esquecido, uma alma que perdoa; Destruído, um coração que chora". "Voltaire"

terça-feira, 24 de setembro de 2013

5 pontos para abordar a morte em sala de aula

Acolher as inquietações de cada um e responder às dúvidas com explicações verdadeiras é um caminho para auxiliar a superar uma perda


Ilustração: Eduardo Recife
TERMINA A VIDA. O QUE VEM DEPOIS?Quem enfrenta a tristeza de uma morte vivencia o luto até a perda ser aceita. Para auxiliar a enfrentar essa fase, é preciso falar com sinceridade. Respostas fantasiosas tendem a prolongar o sofrimento. Ilustrações: Eduardo Recife























"É uma coisa curiosa a morte (...). Todos nós sabemos que o nosso tempo neste mundo é limitado e que eventualmente todos nós acabaremos embaixo de algum lençol para nunca mais despertar. E, no entanto, é sempre uma surpresa quando isso acontece com alguém que conhecemos." Reflita por alguns instantes sobre como você se sentiu ao ler essa citação do autor infanto-juvenil Lemony Snicket, no livro Raiz-Forte. Quais sentimentos preveleceram: medo? Resignação? Indignação? Identificação? A resposta depende da maneira como cada um lidou (e lida) com as inevitáveis perdas que a vida nos traz - a de um amigo que se mudou para longe, o desaparecimento de um animal de estimação ou a morte de um parente querido. Sempre que um desses eventos ocorre, passamos pela chamada elaboração do luto - um processo psicológico que atinge o indivíduo, sua família e os grupos da sociedade dos quais ele participa, um período doloroso (e necessário) de intensa tristeza, que dura até que a pessoa aceite a perda e possa seguir em frente com a vida.

Embora as crianças (sobretudo as mais novas) ainda não compreendam inteiramente a ideia de morte, o assunto deve ser discutido na escola para que elas tenham a oportunidade de trocar opiniões com os colegas e também encontrar apoio para encarar o sofrimento. A origem da crise, em geral, se dá com a morte de um familiar ou de uma pessoa próxima, mas também pode ocorrer em casos como a separação dos pais, a morte de uma personalidade famosa e até de uma mudança brusca, como a troca de cidade ou de escola. Todas essas situações geram dificuldades para as crianças. Como o comportamento das pessoas ao redor interfere no enfrentamento das perdas, uma intervenção adequada no momento certo é de grande importância, podendo ajudar no encaminhamento do luto e no restabelecimento das condições emocionais dos pequenos.

Para os estudiosos do tema, o principal requisito para uma atuação eficaz é se apoiar na verdade. Afinal, uma informação distorcida pode interferir na conscientização da perda e na sua aceitação. "A morte faz parte do processo da vida. Contar uma mentira, dizer que a pessoa foi viajar, que virou estrela ou qualquer outra resposta evasiva só irá prolongar o sofrimento. Quando se deparar com a verdade, a criança se sentirá enganada e a relação de confiança será quebrada", explica Valéria Tinoco, supervisora do Instituto de Psicologia 4 Estações, em São Paulo.

Ilustração: Eduardo Recife
VAI-SE O LUTO, FICAM AS LEMBRANÇASPassado o período de intensa tristeza, a criança não esquece o que ocorreu. A perda continua sendo uma lembrança muitas vezes dolorosa, mas já não a impede de tocar a vida em frente.
Isso, entretanto, não significa que a discussão do tema na escola seja simples. Para ajudar a lidar com a situação, é preciso levar em conta diversos fatores, que dizem respeito principalmente à fase de desenvolvimento em que cada criança se encontra e ao ambiente que a cerca. Abaixo, você confere cinco pontos essenciais que devem ser considerados na hora de abordar a morte com suas turmas.

1. Respeitar as escolhas da família e da criança
"Mamãe foi morar com papai do céu", "Totó foi para o paraíso dos cachorrinhos", "Vovô está vivo em uma outra dimensão". É normal que as crianças apresentem explicações para a morte baseadas na religiosidade, nas crenças e e na cultura da família. Você, professor, deve aceitar a argumentação, mas, se for indagado sobre o ocorrido, seu papel é responder da maneira mais objetiva - não custa lembrar que a ideia é ajudar o pequeno a se conscientizar da perda (leia o quadro abaixo). "Por mais que seja difícil, é preciso mostrar a morte como algo inevitável", observa Maria Júlia Kovács, professora de Psicologia da Morte no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

Essa postura deve ser explicitada nas conversas com os pais - nesses encontros, aliás, é preciso considerar que os próprios familiares, fragilizados, apresentem dificuldade em lidar com a questão. "Como a criança passa grande parte do dia no ambiente escolar, é importante que ali ela encontre respostas que talvez não apareçam num primeiro momento em casa, por estarem todos abalados", comenta Valéria. A escola deve se aproximar, oferecer ajuda e, se preciso, buscar o auxílio de profissionais de Psicologia.
Entender os sentimentos para agir
Para os professores do Colégio João Paulo I, na capital paulista, a relação direta da escola com a família foi essencial para que Rafael* superasse a morte da mãe, há três anos. Na época, ele estava no 2º ano e, com o passar dos dias, foi compreendendo o que ocorreu e como isso estava afetando sua vida. "Hoje ele comenta o assunto com facilidade. Não quer dizer que não sofra, mas, como não omitimos nada, a atenção dele não ficou na obtenção de respostas, e sim em se conscientizar da perda e aceitá-la", conta a coordenadora pedagógica Aura Maria Lousada. Ainda assim, cada Dia das Mães gerava dúvidas nos professores sobre como agir. A solução encontrada por eles é sempre conversar com o garoto sobre seus sentimentos, principalmente em relação às atividades especiais que são desenvolvidas nas aulas. Para a surpresa da equipe, no último ano, o garoto decidiu fazer uma lembrancinha e levá-la ao cemitério. "Entendemos que, para ele, aquele ato era uma forma de homenagear a mãe falecida. O que fizemos foi acolher a ideia e ajudá-lo a realizá-la", conta Aura.
2. Considerar a faixa etária de cada aluno
Desde pequena, a criança já entende a ideia da morte - o que muda ao longo dos anos é a concepção dela sobre a perda. Até os 5 anos, a criança considera a morte reversível. Depois, começa a entender a finitude, mas ainda não a concebe como universal - acha que ela não pode vir para alguém jovem, por exemplo. "É somente por volta dos 10 anos que passamos a compreender a morte com mais clareza", explica Maria Júlia. Nesse sentido, a participação em rituais como velórios e enterros, ainda que dolorosa, é importante para auxiliar na complexa construção do que significa a morte (leia o quadro abaixo).
Mostrar a dimensão cultural da morte
A perda de um bichinho de estimação também é uma maneira de educar uma criança para a morte e o luto. "Emocionalmente, o impacto é menor do que perder a mãe, por exemplo, mas pode ser maior do que a morte de um parente distante. O luto da criança pela perda de um animal deve ser respeitado da mesma maneira", observa Valéria. No início do ano, os educadores da Creche Central da USP, na capital paulista, se viram diante de uma situação como essa e precisaram alterar a programação das atividades para se voltar a um fato que mobilizou todas as crianças: um jabuti que vivia no local morreu e com isso surgiram perguntas e inquietações por todos os lados. Depois de esclarecer os fatos, a escolha foi elaborar um trabalho para que a morte fosse aceita e compreendida. "Fizemos uma assembleia com todos para decidir o destino do corpo. Por fim, com o consentimento de todos, realizamos uma cerimônia simbólica, seguida do enterro", conta o coordenador Rodrigo Flauzino. Para ele, o importante era que os pequenos não só lidassem com a morte mas também participassem do ritual para compreender sua dimensão cultural.

3. Buscar um interlocutor próximo ao estudante
É importante que, quando a escola fica incumbida de contar sobre uma morte ou conversar sobre ela com o aluno, o diálogo seja estabelecido com alguém em quem confie e que dê a ele abertura para falar, questionar e até pedir apoio emocional. "Imagine que sensação horrível ele teria ao receber uma notícia ruim de um desconhecido ou de alguém com que teve pouco contato", diz Valéria.
4. Trabalhar a questão com a classe
A relação com a turma nesse momento é importante para ajudar no acolhimento do estudante. "Quando um aluno vive a perda significativa de alguém, é comum que os colegas se abatam também, pois acabam se identificando. Compreender o que está se passando com a classe e com a criança enlutada é necessário para auxiliar o professor a lidar com a dinâmica da sala", afirma Solange Capaverde, coordenadora do Projeto Solverde, da Universidade Federal de Santa Maria (UFS). Um dos caminhos é proporcionar debates sobre o tema. Vale orientar a classe e explicar o que o colega está vivendo e, quando ele retornar à escola, proporcionar situações em que possa falar e também ouvir opiniões e histórias dos outros alunos. Filmes e contos podem ser usados como porta de entrada para explorar a morte e o luto. Porém, antes de propor qualquer atividade, é importante saber se a criança enlutada está disposta a se abrir e a falar sobre isso.
5. Minimizar os efeitos do luto no aprendizado
Na medida do possível, é importante atentar para que o desempenho escolar do aluno não seja muito prejudicado pelo pesar. "O educador precisa saber que, logo após a morte, a criança pode não produzir como antes. Nos dias que seguem, é importante conversar para encontrar a melhor maneira de ele não perder o conteúdo", afirma Maria Júlia. Vale explicar quais atividades vão ser feitas e ouvir a opinião do aluno para saber se ele tem condições de desempenhá-las. O correto é sempre oferecer uma alternativa - o que não pode ocorrer é deixá-lo de lado (leia o quadro abaixo). "É comum que crianças reajam de maneiras diversas. O choro não é o único modo de manifestar o sentimento de perda. Às vezes, elas têm sonolência, dificuldade de concentração e desinteresse, entre outros comportamentos. Todos são maneiras de mostrar que a situação não é fácil", explica Valéria.

Pode ser que demore algum tempo, mas o fato é que o luto, quando bem elaborado, passa. Ao perceber-se acolhida, a criança amadurece com mais facilidade a ideia da perda e, aos poucos, volta à rotina. Claro que podem ocorrer recaídas. Passado certo tempo após a elaboração do luto, é comum que ela relembre a morte e retome alguns sentimentos de tristeza intensa. Essa situação pode ser mais ou menos marcante, de acordo com a superação do luto. Em todos os casos, o trabalho em conjunto com a família ajuda a superar a crise com mais facilidade, principalmente quando envolve crianças muito pequenas.
Cuidar do rendimento com ajuda da família
O começo de 2010 foi cheio de mudanças na vida de Lucas*. Era o início de seu primeiro ano na EMEB Graciliano Ramos, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Ele ganhou mais amigos, uma professora e passou a conhecer um mundo diferente. No meio de todas essas novidades, porém, ele sofreu duas perdas significativas: primeiro, a separação dos pais, que mudou toda a rotina familiar e, logo em seguida, o falecimento do avô, de quem era muito próximo. Quase sem tempo para digerir cada fato separadamente, o menino perdeu o interesse pelas aulas e parou de comer. "A família estava abalada e não sabia como lidar com isso. Para que o jejum não durasse mais tempo, pedimos uma orientação para a psicóloga responsável pela rede de ensino. Depois de algumas reuniões com ela e a família, encontramos uma maneira de ajudá-lo", conta a diretora, Filomena Cabral Paes Jasiulone. O tempo de permanência na escola passou a ser intercalado com visitas da mãe para que ele se sentisse mais calmo e seguro. A aproximação com a família e a busca de apoio externo foi decisiva para que ele voltasse aos poucos à rotina normal.

Publicado em NOVA ESCOLA Edição 233JUNHO/JULHO 2010. Título original: A morte, sem rodeios

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